Romance

Cada Porta Entre Nós

Traduzido do inglês · Ler o original em inglêsTambém emFrançais

Resumo da História

Ela sempre escolhia romã. Kane e Octavia dançaram numa tarde de quarta-feira, pisando um no pé do outro, errando os passos da valsa no apartamento pequeno dela. Anos de pequenos momentos, manhãs tranquilas na varanda, discussões por nada, foram se transformando em algo que nenhum dos dois soube como preservar.
Cada Porta Entre Nós

Ela sempre escolhia romã. Não sei por que estou começando por aí, exceto que é a coisa que consigo sentir agora se fecho os olhos, aquele gosto forte e meio medicinal, deixado em infusão tempo demais porque ela esquecia enquanto fazia outra coisa. Regando a samambaia. Afinando o violão que deixava encostado no radiador. Uma vez deixou o saquinho na água por quarenta minutos e bebeu mesmo assim, fazendo careta, e quando perguntei por que ela não fazia outro, ela me olhou como se eu tivesse sugerido jogar fora um filho primogênito.

Eu sei fazer chá de romã. Faço desde então. O gosto sempre sai errado. Levei três tentativas para perceber que ela colocava mel. Meia colher, não uma inteira, mexida com aquele jeito específico de virar o pulso que não era nem cuidadoso nem descuidado. Agora eu ponho mel. Ainda sai errado.

O apartamento era pequeno. Um quarto, uma cozinha que se misturava com a sala, uma varanda mal larga o suficiente para duas pessoas em pé, coladas. A porta do banheiro emperrava se você não levantasse e empurrasse ao mesmo tempo, e na primeira noite que dormi lá fiquei preso ali dentro por seis minutos antes que ela me ouvisse batendo. Ela riu tanto que teve que sentar no chão do corredor. Não é uma das memórias importantes, eu acho. Mas é uma que continuo revivendo mesmo assim.

Revivo muitas coisas. A maioria delas sem som.

A valsa foi ideia dela. Uma tarde de quarta-feira em novembro, o aquecimento estalando nos canos, nada planejado. Ela disse que andava assistindo a vídeos na internet e queria tentar. Abriu alguma coisa no celular, uma peça de Strauss, acho, saindo metálica pelo alto-falante pequeno, e pegou minha mão e disse que ia conduzir.

Ela era uma professora péssima.

Quero deixar isso claro porque passei meses lapidando essa memória até transformá-la em algo que ela não foi. Na minha cabeça virou aquela cena, Octavia paciente e graciosa, me guiando pelos passos, a mão firme no meu ombro enquanto eu tropeçava. Essa é a versão que carrego comigo. É mentira. Ela não conseguia contar e se mexer ao mesmo tempo. Ficava dizendo "um dois três, um dois três" e então dava um passo à frente quando devia dar um passo atrás, esbarrando em mim, e depois ria tanto que perdia a conta inteira. Eu pisei nos pés dela. Ela pisou nos meus. Em um certo momento ela tentou me inclinar para trás num movimento de dança e quase caímos os dois em cima da mesinha de centro.

Nunca aprendemos a valsa. Esse nunca foi o ponto. O ponto era a mão dela na minha numa tarde de quarta-feira em que nenhum dos dois tinha para onde ir, e o fracasso era a desculpa. Ficamos parados na sala dela pisando um no pé do outro e rindo de nada e foi a coisa mais deliberada de que já fiz parte. Ela me segurou como se tivesse a intenção real de fazê-lo. Eu a segurei de volta. O Strauss continuou tocando no celular em cima da bancada da cozinha, e acho que a música repetiu três vezes antes que algum de nós dois pensasse em desligar.

Penso nisso quando tento ser honesto comigo mesmo. Sobre o que guardei e o que editei.

O tai chi era pela manhã. Ela já fazia havia anos antes de eu aparecer, ali naquela varanda estreita com o barulho do trânsito e os pombos. Ela dizia que a centrava, o que normalmente seria motivo para eu revirar os olhos, mas vendo-a fazer aquilo eu entendi. Os movimentos dela eram lentos e fluidos e ela parecia pertencer ao próprio corpo de um jeito que eu nunca consegui.

Ela tentou me ensinar isso também. Eu era espetacularmente ruim. Meu equilíbrio saía errado, minha respiração saía errada, e eu ficava abrindo os olhos para conferir se estava fazendo os movimentos certos, o que aparentemente destruía todo o propósito. Ela corrigia a posição do meu braço movendo-o ela mesma, os dedos ajustando meu cotovelo, meu pulso, o ângulo da minha palma. Ela não falava muito nessas manhãs. Só me tocava até eu chegar à forma certa e deixava o silêncio fazer o que precisava fazer.

Havia um pombo específico que sempre pousava no corrimão. Cinza, com uma mancha branca no peito, como um babador. Aparecia quase todas as manhãs e Octavia o chamava de Gerald. Ela acenava com a cabeça quando ele chegava. "Bom dia, Gerald." Como se tivessem um acordo.

Fico imaginando se Gerald ainda aparece.

A lan house ficava na esquina da rua dela, descendo uma escada até um porão que cheirava a energético e a limpador de carpete. A gente ia lá às vezes nos domingos à tarde, não para fazer nada em particular, só para sentar um ao lado do outro em telas vizinhas e existir dentro do mesmo espaço zumbindo. Os coolers faziam um zunido de baixa frequência que se misturava com o clique do teclado mecânico dela, e ela digitava com agressividade, como se cada tecla pressionada fosse um pequeno argumento que ela estava vencendo.

A gente discutia por nada. Se um determinado filme era superestimado. Se colocar o leite primeiro era aceitável. Uma vez passamos quarenta e cinco minutos debatendo se um cachorro-quente era um sanduíche, e ela se exaltou tanto que o cara no terminal ao lado colocou fone de ouvido. Eu amava a voz dela quando estava discutindo sobre coisas que não importavam. Ficava mais aguda e mais rápida e ela começava a gesticular com as duas mãos longe do teclado, e eu discordava dela só para manter aquilo vivo.

Às vezes ouço aquele zunido. Em cafeterias, quando o compressor da geladeira liga ou a ventilação pega uma certa frequência. Por uma respiração eu penso que ela está ali, fora do meu campo de visão, clicando em alguma coisa. Depois a respiração passa.

A festa de Halloween foi no apartamento da amiga dela, a Dani. Octavia foi de mariposa. Fez as asas ela mesma com cabides de arame e algum tipo de tecido sintético que achou numa loja de artesanato, e elas eram espetaculares do jeito que fantasias caseiras costumam ser, ou seja, tortas e um pouco grandes demais e com cola quente em excesso em alguns pontos. Ela tinha orgulho delas. Eu fui de algo que nem me lembro mais agora. Alguma máscara que comprei de última hora. Não encaixava direito e ficava escorregando para o lado.

A briga começou dentro e se mudou para fora. Não vou dizer sobre o que foi porque não é o lugar disso aqui, não de verdade. O que posso dizer é que estávamos em pé na chuva perto da escadinha da entrada da Dani e as asas dela estavam amassando. O tecido sintético segurava água como uma esponja e as asas iam ficando mais pesadas e caindo atrás dela, e ela estava dizendo alguma coisa que eu devia estar ouvindo, e tudo em que eu conseguia me concentrar era nas asas. Estavam arruinadas e ela tinha passado horas nelas.

No meio do que quer que eu estivesse respondendo, parei. Porque percebi que não estava com raiva do que ela tinha dito. Estava com medo. Ela tinha visto algo em mim naquela noite, com clareza e sem se abalar, e meu corpo inteiro estava tentando fazer disso culpa dela. Não era culpa dela. Ela só tinha me visto.

Ficamos ali na chuva por um tempo depois que parei de falar. Nenhum de nós dois disse nada. Então ela esticou a mão e ajeitou minha máscara, que tinha escorregado quase inteiramente do meu rosto, e a empurrou de volta no lugar com as duas mãos, ajustando o elástico atrás das minhas orelhas. Ela não sorriu. Só consertou. E então voltamos para dentro.

As asas dela deixaram manchas úmidas no meu antebraço que atravessaram a manga. Senti o tecido molhado contra a pele pelo resto da noite. Frio no começo, depois morno com o calor do meu corpo. Não arregacei a manga. Não queria perder aquela sensação.

O terrário foi ideia minha. Construí num sábado enquanto ela tocava violão no outro cômodo, mal, do jeito que ela sempre tocava violão, com mais entusiasmo do que técnica. Usei um pote de vidro que ela mantinha no parapeito da janela sem motivo nenhum, enchi de terra e pedrinhas, plantei três suculentas minúsculas e uma samambaia que tinha encontrado na feira. Ela entrou quando eu estava pressionando a última pedra de rio contra o vidro e colocou a mão sobre a minha e apertou mais forte. "Assim mesmo", disse ela. "Bem ali." A terra ficou embaixo das minhas unhas por dias.

Ela deu à menor planta o nome de Biscuit. Em homenagem ao meu cachorro de infância. Eu tinha mencionado ele uma vez, talvez às duas da manhã, durante uma daquelas conversas que acontecem quando você está cansado demais para filtrar. Falei o nome dele exatamente uma vez. Ela lembrou. Ela lembrava de tudo que eu deixava escapar. Todos os retalhos e comentários soltos e coisas que eu dizia na escuridão achando que se dissolveriam até de manhã. Ela colecionava. Guardava em algum lugar que eu não conseguia ver.

O terrário ainda está vivo. Sei porque a Dani me contou, meses depois, numa mensagem que eu não pedi e não respondi. "Ela ainda tem aquela plantinha que você fez. Está no parapeito da janela dela." Li aquela mensagem onze vezes.

A noite de terça-feira no chão da cozinha foi antes de tudo isso e depois de tudo isso porque a memória não liga para sequência.

Ela estava sentada com as costas contra o armário embaixo da pia. Eu tinha ido até lá depois do trabalho e entrado sozinho com a chave que ela tinha me dado na semana anterior, e ela simplesmente estava ali. No chão. Sem fazer barulho. A chaleira tinha fervido e desligado sozinha e a cozinha estava cheia de vapor.

Sentei ao lado dela. Sem tocar.

Ela disse, "Antes de você, eu me ensinei a parar de esperar que alguém ficasse." Disse isso sem entonação, como um fato sobre o tempo. Os olhos dela estavam úmidos mas a voz estava firme de um jeito que piorava tudo. "Fiquei boa nisso. Muito boa. E agora não sei como parar de ser boa nisso."

Não disse nada. Não a toquei. Fiquei ali sentado com as costas contra o armário ao lado do dela e deixei que ela dissesse o que precisava dizer, e acho que foi a primeira vez que acertei exatamente. Não sei por que acertei. Todo instinto que eu tinha estava gritando para estender a mão até ela, consertar aquilo, dizer as coisas que a gente é obrigado a dizer. Não fiz isso. Só fiquei ali sentado. E depois de muito tempo ela inclinou o ombro contra o meu, só levemente, e ficamos assim até o vapor se dissipar e a cozinha voltar a ser só uma cozinha.

Ela disse "eu te amo" pela primeira vez numa quinta-feira. Estava parada no fogão mexendo alguma coisa numa panela, acho que era sopa, e não levantou os olhos. Só disse. "Eu te amo, Kane." Como quem pede para passar o sal. Como se aquilo já fosse verdade e sempre tivesse sido verdade e ela só estivesse encontrando um momento para mencionar.

Ela tinha me entregado uma colher de pau um instante antes. Eu estava segurando a colher. Fiquei ali parado segurando aquela colher de pau e não consegui falar. Onze segundos. Contei depois, de cabeça, revivendo a cena. Onze segundos de silêncio que pareceram um afogamento em água morna, não porque eu não sentisse o mesmo, mas porque sentia tão completamente que a garganta se fechava em volta daquilo. Ela continuou mexendo. Não levantou os olhos. Não precisava que eu respondesse na hora. Só precisava dizer.

Eu respondi. Por fim. Baixinho. E ela balançou a cabeça, ainda mexendo a panela, e foi isso.

Não vou contar por que acabou. Isso não é meu para revelar, nem aqui, nem na privacidade da minha própria cabeça, onde já revirei isso tantas vezes que as bordas ficaram lisas. Algumas coisas pertencem só a quem as viveu. Posso dizer que não foi culpa de ninguém, ou que foi culpa dos dois, ou que "culpa" é a palavra errada por completo. Posso dizer que houve conversas em que fracassei, momentos em que a entendi perfeitamente e isso me apavorou, porque entender significava que eu não podia mais fingir.

Posso contar sobre a porta.

A porta dela. A mesma pela qual eu entrava com a chave que ela me dera, aquela fechadura emperrada que era preciso sacudir. Ficamos cada um de um lado do que estava prestes a se tornar uma fronteira, e estávamos tão compostos. Tão absurdamente compostos. Nós dois tínhamos ensaiado aquilo, separadamente, em particular, e eu sentia o ensaio em cada músculo do rosto dela.

Ela ajeitou minha gola. Não estava torta. Ela ajeitou mesmo assim.

"Certo," eu disse.

"Certo," ela disse.

E foi só isso. Nenhum discurso. Nenhuma revelação. Apenas a palavra "certo" servindo de substituta para tudo o que tínhamos sido um para o outro, carregando um peso para o qual jamais fora feita. Ela deu um passo para trás. A porta se fechou. Fiquei parado no corredor por um instante, escutando o nada, e então desci as escadas e saí para a rua.

Consegui chegar até a esquina antes de desabar. Sem alarde. Só parei de andar e encostei a mão na parede de um prédio e deixei acontecer, fosse lá o que fosse, aquilo que atravessava por mim como uma tempestade.

Depois caminhei até a faixa de pedestre no fim da rua dela. O sinal estava vermelho. Fiquei parado com estranhos, esperando.

O sinal abriu. As pessoas se moveram ao meu redor. Eu fiquei.

Não sei explicar o que aconteceu depois, a não ser dizer que algo chegou. Não um pensamento. Uma sensação. Baixa e física, como uma corda sendo dedilhada em algum lugar atrás das minhas costelas, vibrando numa frequência que eu conseguia sentir mas não ouvir. Sorri. Não porque estivesse feliz. Sorri porque estava cheio. Cheio dela e de tudo que fizemos mal e bem e do chá de romã e da valsa que nunca aprendemos e do Gerald, o pombo, e da discussão idiota sobre cachorro-quente e dos onze segundos de silêncio depois que ela disse que me amava. Eu estava cheio disso e aquilo não ia embora e eu ia ter que aprender a carregar aquilo, e aprender levaria anos, e eu estava parado, imóvel, no meio da faixa de pedestre enquanto o sinal fechava de novo.

Uma mulher ao meu lado trocou a sacola de compras de mão. Em algum lugar atrás de mim, um ônibus

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