Resumo da História

As luzes fluorescentes zumbiam numa frequência que se instalava na parte de trás dos dentes. A Criatura 684 estava sentada com a coluna contra a parede e os joelhos dobrados, contando as rachaduras no concreto do outro lado. Quatorze. Ontem tinham sido treze, até que em algum momento da noite sua cauda raspou uma nova perto do chão.
Ele costumava ter um nome.
A cela media três metros e meio por três meio, e o teto tinha dois metros e setenta, o que significava que ele precisava se curvar quando ficava de pé. O vidro na parede leste era reforçado, com sete centímetros de espessura, e além dele havia um corredor que cheirava a alvejante e cera de piso, e nada mais. Tinham tirado o catre depois da segunda semana, porque ele o destruíra numa noite ruim e decidiram que ele não precisava de um. O concreto servia bem para algo como ele. Ele concordava com eles nesse ponto, que era a única coisa em que algum dia haviam concordado.
Elias Crane tinha vinte e três anos quando morreu. Vinte e três anos e parado numa garagem com os amigos atrás dele e os homens com os tacos e a faca na frente, e ele estava apavorado. Ainda conseguia sentir a mão de Kyle no seu ombro, dizendo é melhor a gente ir, vamos embora, e por baixo disso sua própria certeza gelada de que não havia para onde ir, porque a escada estava atrás dos homens e o elevador estava quebrado desde março. O primeiro taco atingiu suas costelas e o som ecoou no teto baixo. Ele revidou do jeito que qualquer um revida, de forma desajeitada, desesperada e pequena.
Então algo se rompeu.
Não seus ossos. Algo mais profundo, sob a própria arquitetura de quem ele era. Rachou como um piso que cede, e o que subiu por aquela fenda não era ele. Ele matou todos eles, um por um. Não se lembrava de como. Lembrava-se da sensação, porém, a sensação de respirar depois de ter sido mantido debaixo d'água, e foi essa parte que o enojou depois, porque tinha sido bom. Tinha parecido certo.
Quando se virou, seus amigos estavam encostados na parede do fundo. Kyle tinha o braço estendido na frente de Sarah e Demi, e o rosto da cor de papel velho. Elias olhou para as próprias mãos e viu que estavam erradas. Os dedos longos demais, as unhas substituídas por algo mais duro e mais escuro. Kyle disse o nome dele. "Elias?" Como uma pergunta. Como se o nome já não coubesse mais na coisa parada ali na frente dele.
Eles correram. Os três. Correram, e ele ficou ali parado na garagem com os homens mortos a seus pés e as mãos que não eram suas mãos e as luzes fluorescentes zumbindo lá em cima, a mesma frequência, sempre a mesma frequência.
Ele morreu pouco depois. Essa parte nunca voltou com clareza. Dor e frio, depois nada, depois acordar nesta cela com a parede de vidro e o teto de dois metros e setenta e um homem de uniforme cinza lendo sua designação. Criatura 684. Fazia onze meses que estava ali. As luzes nunca se apagavam.
A abertura na base da parede de vidro se abriu e uma bandeja deslizou para dentro. Nela estava o recipiente de sempre, bege e requentado no micro-ondas, com um cheiro entre papelão e nada. Ele não olhou para aquilo. A abertura se fechou. Quem quer que tivesse entregado não disse uma palavra. Nunca mais diziam, desde que o segundo cuidador tinha pedido demissão e o anterior fora transferido para outra ala. Ele tinha ouvido um guarda do corredor contando para alguém pelo telefone que ninguém queria aquela função. Que a coisa na cela 684 era um caso perdido.
Ele acabou comendo, porque a fome era uma daquelas coisas que o tinham seguido através da morte, e ele odiava isso. Odiava ainda precisar de coisas.
Três dias depois, a abertura se abriu e algo chegou que a cozinha nunca tinha enviado antes.
Um prato. Um prato de verdade, de cerâmica, branco com uma pequena lasca na borda. Nele havia macarrão, macarrão de verdade, com molho que tinha alho e azeite e algo verde que podia ser manjericão. O cheiro cortou o ar antisséptico do corredor como uma porta que se abre para um prédio diferente. Elias ficou olhando para aquilo do outro lado da cela.
Ele não se moveu.
Passou-se uma hora. Duas. Através do vidro conseguia ver alguém sentado no corredor. Uma mulher, jovem, cabelo escuro preso para trás, o uniforme da instituição um tamanho maior do que o dela. Uma prancheta fechada em cima do colo. Ela estava sentada de pernas cruzadas no chão, como se não tivesse nenhum outro lugar no mundo para estar.
Na terceira hora, o macarrão já tinha esfriado e Elias finalmente se moveu na direção dele. Agachou-se e pegou o prato, e suas mãos com garras tremiam com tanta força que o garfo chacoalhava contra a cerâmica. Comeu no canto, de costas para o vidro, porque não queria que ela visse como ele precisava segurar o garfo, apertado entre dedos que não tinham sido feitos para segurar garfos. O alho ficou na língua dele e, por um momento, ele estava em outro lugar inteiramente diferente. Não ali. Algum lugar com uma cozinha e uma janela e uma pessoa que cozinhava coisas porque queria.
Quando se virou de novo, a mulher tinha a palma da mão pressionada contra o vidro. Sem sorriso. Sem lágrimas. Só a mão dela ali, e uma expressão para a qual ele não tinha nome, porque ninguém tinha olhado para ele daquele jeito havia onze meses. Ela não disse nada, e ele também não.
O nome dela era Paloma Serrano. Ela se apresentou no dia seguinte, através do vidro, do mesmo lugar no chão do corredor, junto com tudo o mais: que tinha sido designada como a nova cuidadora dele, que trabalhava na instituição havia sete meses antes disso, que o trajeto até o trabalho levava quarenta minutos em dois ônibus porque ela não tinha condições de comprar um carro. Uma música do segundo ônibus tinha ficado presa na cabeça dela a manhã toda. Ela cantarolou alguns trechos, um pouco desafinada e completamente sem sentido, e ele ficou sentado encostado na parede do fundo, ouvindo como se ela estivesse lendo algo sagrado para ele.
Nas semanas seguintes, ela trouxe comida de verdade em todos os turnos. Frango com arroz num dia. Sopa em outro. Uma vez um sanduíche que ela admitiu ter estragado, o pão dormido, e pediu desculpas por aquilo, e ele comeu cada pedaço. Ela conversava com ele sobre nada em particular. O tempo lá fora. Um colega de trabalho que esquentava peixe no micro-ondas da copa. Um pombo que tinha visto no caminho vindo do ponto de ônibus, que só tinha uma pata e parecia perfeitamente bem com isso.
Ele começou a responder. Não muito, e não de início. Contou a ela que seu nome era Elias, e ela passou a usá-lo imediatamente, como se chamar um demônio pelo primeiro nome não custasse absolutamente nada. Contou a ela que tinha tido vinte e três anos, que tinha sido uma pessoa, que tinha tido amigos e um apartamento e um emprego arrumando prateleiras numa loja de ferragens três noites por semana.
"O que você mais vendia?" perguntou ela certa tarde.
"Lâmpadas," disse ele. "As pessoas estão sempre queimando as lâmpadas delas."
Ela riu. Foi uma risada pequena, quieta, e ecoou pelas paredes do corredor de um jeito que fez o espaço parecer, por um instante, menos um corredor e mais um lugar onde duas pessoas estavam simplesmente conversando.
Ele contou fragmentos do resto. Não tudo. A garagem. Os homens com os tacos. Os rostos dos amigos. Ela ouviu sem interromper, e quando ele terminou, não disse que não tinha sido culpa dele. Não disse nada. Simplesmente ficou ali com aquilo, do jeito que a gente fica sentado ao lado de uma sacola pesada que alguém pousou perto de você, reconhecendo o peso dela sem tentar movê-la.
Os colegas dela a chamavam de coisas que ele conseguia ouvir através do vidro quando achavam que ele não podia. Serrano, a babá do monstro. Serrano, que vai acabar espalhada pelas paredes. Ele ouviu um homem no corredor dizendo que tinham começado uma aposta. Não ouviu sobre o quê. Ela nunca mencionou nada disso.
Depois veio a noite ruim.
Ele não sabia o que a tinha desencadeado. Às vezes não havia um gatilho. Às vezes a coisa debaixo do piso simplesmente se abria de novo, e a violência subia pela fenda como água subterrânea. Ele destruiu a cela. Enfiou os punhos no concreto até racharem, e o sangue dele, mais escuro do que deveria ser, pintou as paredes em faixas. Quebrou os restos da prateleira que tinham parafusado na parede. Gritou, e o som que saiu dele não era humano e também não era inteiramente demônio, algo preso entre os dois, uma frequência que a sala não conseguia conter.
Quando ele parou, a poeira de concreto pairava no ar como neblina. Suas mãos estavam rasgadas e latejando. A cela estava em ruínas. Ele se agachou no meio de tudo aquilo, respirando com dificuldade, e através do zumbido nos ouvidos ouviu a porta.
Não a abertura. A porta. A porta de verdade da cela, aquela que exigia três cartões magnéticos e um código e que nunca, sob protocolo nenhum, deveria se abrir com ele consciente.
Paloma entrou.
Ela passou por cima de um pedaço de concreto e se sentou nos escombros a uns um metro e vinte dele, ainda com o uniforme grande demais, as mãos no colo. Parecia muito pequena naquela sala destruída. Olhou diretamente para ele e não recuou.
"Quinta-feira passada," disse ela. Sua voz estava sem entonação, como se estivesse lendo de um formulário. "A quinta-feira antes de me darem o seu arquivo. Eu tinha um vidro de comprimidos na pia do banheiro. Já tinha contado. Trinta e dois. Até tinha escrito um bilhete, mas ficou ruim, então joguei fora e decidi que, sabe, não ia escrever nenhum."
Ele ficou olhando para ela. A poeira ainda estava assentando ao redor dos dois.
"Recebi a ligação sobre a transferência na quarta-feira à noite. Quase não atendi. Pensei em fazer a coisa de quinta-feira e que não ia fazer diferença." Ela tirou um pedacinho de concreto do joelho. "Mas atendi, e me contaram sobre você, e pensei, tudo bem. Mais uma semana. Vou fazer mais uma semana e depois decido."
"Paloma."
"Já faz seis semanas," disse ela. "Não estou mais decidindo."
O silêncio se instalou entre eles nos escombros. As mãos dele sangravam no chão.
"Eu te amo," disse ela. Com o mesmo tom sem entonação. Como o clima. Como um horário de ônibus.
Algo se agitou em seu peito, e não era do tipo bom. "Você é insana." Sua voz saiu áspera e alta demais. "Você é completamente insana. Me amar é só... é só outra forma de fazer isso. Eu não sou um substituto para os comprimidos. Eu não sou."
Ela não reagiu. Ficou ali sentada.
"Você não tem o direito de me usar como motivo," ele disse, mais baixo, a raiva se esvaindo tão rápido quanto tinha vindo. "Você não tem o direito de colocar isso em algo como eu."
Um minuto inteiro se passou. As luzes fluorescentes zumbiam. Em algum lugar da instalação, uma porta se fechou com um baque pesado.
"Você é a única coisa que eu não destruí," ele disse. Sua voz quase não existia. "E eu tenho pavor de você por causa disso."
Ela não se moveu em direção a ele. Ficou onde estava, a um metro e vinte, no meio dos destroços de tudo que ele havia quebrado. "Eu sei," ela disse.
Duas semanas depois, a ala leste sofreu um colapso estrutural. Algo na fundação, disseram. Solo deslocado, reforço inadequado, o prédio se devorando lentamente por baixo. A energia caiu, e pela primeira vez em onze meses Elias ficou sentado em silêncio. Silêncio de verdade. Sem zumbido. Sem frequência nos dentes. Só o nada, e o nada era tão alto que o deixava tonto.
Realocaram-no para o apartamento de Paloma. Chamaram de arranjo temporário, um favor, como se as horas extras não pagas de abrigar um demônio na sua sala fossem algo pelo qual você devesse ser grato. Ela assinou os papéis e não discutiu os termos.
O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio que tinha cheiro de tempero de cozinha e sabão em pó. Ela abriu a porta e Elias teve que se abaixar para passar pelo vão. Estava vestindo um moletom que ela tinha comprado numa loja de caridade, poliéster barato, o zíper frio contra a pele que ficava quente demais por razões que ninguém tinha explicado. Apertava nos ombros e as mangas não cobriam bem as mãos, mas ele continuava puxando-as sobre as garras de qualquer forma, um gesto nervoso que não conseguia parar.
Neve estava na cozinha.
Ela estava com uma xícara de chá nas mãos e olhou para cima e o viu e a xícara caiu. Bateu no piso e a cerâmica se espatifou e o chá se espalhou numa poça escura e ninguém respirou.
No silêncio, Elias se ajoelhou. Suas mãos, aquelas que tinham se rasgado em paredes de concreto, aquelas que poderiam ter arrancado o balcão em pedaços, começaram a recolher os cacos com cuidado. Ele colocava cada pedaço na mesa da cozinha, um por um, para que ninguém pisasse neles. Suas garras faziam um clique contra a cerâmica enquanto trabalhava.
Neve o observava. Sua respiração estava curta e ele podia sentir o cheiro de cortisol saindo da pele dela, agudo e brilhante como cobre, mas não disse nada sobre isso. Ela observava as mãos dele e algo mudou no rosto dela. Não o medo indo embora. O medo se fraturando, deixando algo mais passar pelas fissuras.
"Eu sou a Neve," ela disse. Sua voz estava mais aguda do que o normal.
"Elias," ele disse, colocando o último caco na mesa.
Os três ficaram parados na cozinha com a poça de chá no chão e se olharam e ninguém sabia o que vinha a seguir. Paloma foi buscar um pano.
Naquela noite Neve colocou três pratos na mesa sem que ninguém pedisse. Ela os colocou rápido, como se tivesse medo de mudar de ideia se hesitasse. O terceiro prato ficou levemente torto. Ninguém o ajeitou.
Eles saíram no quarto dia. Elias usava o moletom com o capuz levantado e um par de luvas que Paloma tinha encontrado numa gaveta, pequenas demais para ele. O zíper pressionava frio contra o peito. Ele continuava puxando as mangas para baixo. A rua estava alta e clara e o ar tinha um gosto diferente ali fora, como escapamento e chuva e a gordura da loja de fritas na esquina. Uma mulher passou empurrando um carrinho de bebê e nem olhou duas vezes para ele.
Paloma estava contando sobre um programa que tinha visto na noite anterior quando Elias sentiu o cheiro de algo errado. Não exatamente um cheiro. Mais uma mudança no ar. Ele se virou.
O beco era estreito e escuro e o homem que saiu dele estava tremendo. Aaron Pike tinha trinta anos, talvez mais, e segurava uma faca de cozinha com um aperto que dizia que ele nunca tinha empunhado uma arma na vida, mas pretendia usar aquela. Sua respiração vinha em soluços, meio choro e meio hiperventilação, o som úmido dela ricocheteando no tijolo e na lixeira e se misturando ao trânsito da noite que seguia se movendo como se nada estivesse acontecendo.
"Eu sei o que você é," Aaron disse. Sua voz quebrou na última palavra.
O corpo de Elias se moveu antes da mente. Ele tinha o pulso de Aaron na mão e a faca apontada para o nada e Aaron pressionado contra a parede, e ele podia sentir a pulsação do homem martelando sob seu aperto. Rápida. Aterrorizada. Todo instinto que ele tinha gritava uma única palavra, e a palavra era terminar.
"Elias." A voz de Paloma. Sem pânico. Firme.
Ela não o afastou. Ela se colocou entre eles, de costas para a faca, de frente para ele, perto o suficiente para sentir a respiração dele.
"O nome dele é Aaron," ela disse. "Ele perdeu pessoas. Naquela noite. A noite em que você..." Ela parou. "Ele perdeu amigos."
Aaron fez um som atrás dela. Um som sufocado, destroçado. Ele não disse os nomes deles.
Elias olhou para os olhos de Aaron por sobre o ombro dela. Ele viu. A fúria impotente, a dor que não tem para onde ir a não ser para fora. Ele reconheceu daquele jeito que se reconhece a própria letra numa página que não se lembra de ter escrito. Ele tinha sentido exatamente aquilo num estacionamento, de pé sobre os corpos, olhando para mãos que não eram suas.
Ele soltou o pulso de Aaron.
Aaron cambaleou para o lado, se apoiou na lixeira e correu. Seus passos ecoaram e desapareceram, e então havia só o trânsito e o rádio do carro de alguém, uma rua adiante, tocando algo que Elias não reconheceu.
Eles não conversaram no caminho de volta.
Naquela noite Neve sugeriu uma competição de cozinha. Ela disse isso com um entusiasmo exagerado, sua alegria um pouco mais alta do que precisava ser, mas o esforço importava mais do que a execução. Fizeram três versões diferentes de ovos mexidos. Os de Elias queimaram. Neve venceu por padrão porque Paloma pôs açúcar nos seus em vez de sal, e a discussão sobre se isso a desqualificava durou vinte minutos e não resolveu nada.
Mais tarde, sentado no chão porque o sofá era pequeno demais para ele, Elias fez a pergunta que estava em seu peito a noite toda. "O que somos nós?"
Neve olhou para Paloma. Paloma olhou para o teto.
"Não sei," ela disse. "Acho que não existe uma palavra para isso."
"Família," Neve disse. Depois pareceu surpresa consigo mesma, como se a palavra tivesse saído sem consultá-la primeiro.
Ninguém a corrigiu.
No dia seguinte eles caminharam juntos pela cidade, os três. Elias com o moletom e as mangas puxadas para baixo. Paloma à sua esquerda. Neve à sua direita, perto o suficiente para o ombro dela quase roçar o braço dele, uma proximidade que teria sido impensável quatro dias antes. A loja de fritas estava aberta e o ar tinha cheiro de vinagre e Neve estava falando algo sobre o chefe dela e uma impressora quebrada quando Elias sentiu.
Do outro lado da rua, alguém tinha parado de andar. Um homem na calçada oposta, olhando diretamente para ele. Não com curiosidade. Com reconhecimento. Do tipo que começa na barriga e sobe até o rosto e se instala ali como um veredito.
Elias foi o primeiro a desviar o olhar.
Nenhum deles mencionou aquilo. Neve continuou falando sobre a impressora. Paloma ajeitou a bolsa no ombro. Elias puxou as mangas sobre as mãos e os três continuaram andando.


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