Conversas com um Deus Ancião
Resumo da História

A espuma do microfone estava se desfazendo. Rafael notou isso quando puxou o microfone do porta-luvas, uma rachadura na costura onde a proteção contra vento encontrava a alça, espuma cinza saindo aos flocos como o enchimento de um brinquedo barato. Ele apertou com o polegar. Voltou a saltar para fora.
"Essa é a sua imagem heroica?" disse Hollis do banco do motorista. Ele não olhou. Estava checando a bateria da câmera pela terceira vez, tirando-a do compartimento e colocando de volta. Para fora e de volta.
"Vai servir."
"Parece que um cachorro mordeu isso."
"Vai servir."
Eles estavam estacionados na estrada de acesso atrás do cordão militar, ou do que sobrara dele. Dois Humvees estavam parados de bico a rabo sobre o asfalto quarenta metros à frente, ambos vazios. As portas do segundo estavam abertas. Ninguém tinha saltado dele às pressas. Alguém tinha descido devagar, se tomado seu tempo, e depois decidido não voltar.
Dali, Rafael conseguia ver o oceano. Ele desejou não conseguir. A água estava errada, não a cor, não o movimento, mas a imobilidade dela, um prato cinza-chumbo esticado até o horizonte sem uma crista de espuma ou uma ondulação sequer, como se alguém tivesse despejado resina sobre o Atlântico e a deixado curar. Céu nublado. Comum o bastante para março. O silêncio não era comum. Nenhuma gaivota. Nenhuma arrebentação. Ele tinha crescido em San Juan, passado metade da infância em praias, e nunca uma vez tinha ficado tão perto do oceano sem ouvir coisa alguma vindo dele. O ar simplesmente ficava parado ali.
Seu estômago revirou e ele engoliu com força. Nervosismo, disse a si mesmo. Ou o burrito do posto de gasolina, três horas atrás. Podia ser qualquer um dos dois.
"Certo," ele disse, e desafivelou o cinto de segurança.
Hollis parou de clicar a bateria. Ele não disse boa sorte. Não disse se cuida, nem nenhuma das coisas que uma pessoa normal diz. Só olhou para ele com algo se remexendo no rosto que Rafael não conseguiu decifrar, e voltou para a bateria. Clique para fora. Clique para dentro.
Rafael abriu a porta e pisou na estrada.
O cheiro o atingiu na hora. Maresia, mas concentrada, fervida até virar algo químico. Ficou no fundo da língua como se ele tivesse lambido uma moeda. Respirar pela boca piorava as coisas, porque agora ele conseguia sentir o gosto, espesso e metálico, e alguma parte antiga do cérebro insistia em dizer que era sangue. Ele caminhou em direção aos Humvees.
Passando os veículos, a estrada virava areia e capim rasteiro e depois se achatava em praia. Havia coisas na praia. Formas na areia. Ele não queria olhar de perto, mas os olhos fizeram o trabalho de qualquer jeito. Impressões. Depressões em forma humana onde alguém tinha estado de pé e depois, aparentemente, tinha simplesmente deixado de estar de pé. Não caído, a areia não estava perturbada nas bordas. Apenas desabado no lugar, como se a pessoa tivesse sido baixada direto para dentro do solo. Oito que ele conseguia contar. Pertences pessoais espalhados ao redor de alguns deles. Um capacete. Um rifle com a alça ainda enrolada num círculo do tamanho de um ombro. Um cantil de lado, água pingando da tampa aberta.
O cantil ainda estava pingando. Isso significava recente. Ele guardou essa informação na parte do cérebro que ainda estava funcionando.
Ele apertou o microfone. A espuma cedeu sob o polegar, barata e familiar. Continuou caminhando.
Havia uma vibração. Não um som, algo no peito, no esterno, nas raízes dos dentes. Um zumbido baixo e contínuo, como ficar perto demais de um transformador, só que nada estava produzindo aquilo. Subia pelo chão até seus ossos e ficava lá, zumbindo. O corpo dele entendeu algo antes que a mente entendesse. Cada parte dele queria parar. As pernas tinham ficado pesadas e as mãos tremiam, e ele apertou o microfone com mais força para fazê-las parar.
Ele continuou caminhando porque era isso que se fazia. Você caminhava em direção à matéria. Era isso que separava você de todo mundo, e todo mundo corria. Você seguia em frente com seu microfone e seu crachá de imprensa e sua estúpida proteção contra vento rasgada e conseguia, porque se você não conseguisse, o que você era? Um homem numa praia com um mau pressentimento e nenhum motivo para estar ali.
A praia se abriu e ele conseguiu ver.
Ele não entendeu o que estava vendo. Os olhos captaram e mandaram a informação adiante e o cérebro devolveu, rejeitada, insuficiente, tente de novo. Aquilo se erguia das águas rasas talvez duzentos metros adiante. Tinha o tamanho de. Não. A mente dele buscou comparações. Um prédio. Uma face de penhasco. Uma montanha. Nenhuma delas se sustentava, porque prédios e penhascos e montanhas pertenciam ao mundo e obedeciam à geometria, e aquilo não obedecia à geometria. Partes eram sólidas. Partes se dobravam sobre si mesmas como uma ilusão de ótica, exceto que a ilusão era tridimensional e do tamanho de um quarteirão inteiro, e estava respirando. Pulsando. Algo se movia sobre a superfície, através da superfície, num cinza-esverdeado que mudava sempre que ele tentava fixar num único ponto, como se sua visão estivesse sendo gentilmente empurrada para longe. O erro dado forma. Essa era a única frase que a mente dele conseguia segurar.
Ele parou. Cinquenta metros da linha d'água, mais ou menos. A água parada encontrava a areia e não fazia som algum.
O microfone tremia na mão dele. Ele apertou a espuma até a unha do polegar atravessá-la.
Então algo pressionou o interior do crânio dele.
Não era uma voz nem um som. Era pressão, enorme e deliberada, como se os pensamentos dele fossem móveis num quarto pequeno e algo muito grande tivesse aberto a porta e estivesse empurrando tudo com o ombro para caber. A visão dele embranqueceu nas bordas. Ele abriu a boca para gritar e o que saiu foi uma pergunta.
"Quem é você?"
Jornalismo. Seu barco salva-vidas. Ele se segurou com tudo que tinha.
A pressão se assentou. Encontrou uma forma dentro da cabeça dele, não palavras, mas significado que o cérebro dele traduziu em palavras porque não tinha outras ferramentas. E o que dizia era isto.
Eu sou o Sonhador Morto.
"Seu, seu nome. Esse é seu nome?"
É o que vou lhe dar. Meu verdadeiro nome partiria a carne do seu cérebro como fruta passada. Você não conseguiria segurá-lo.
O gosto de metal estava tão forte agora que ele cuspiu. Vermelho. Sangue de verdade, ele tinha mordido a parte de dentro da bochecha sem perceber. Limpou a boca na manga e estendeu o microfone em direção à água, em direção à forma, um reflexo treinado tão fundo que sobreviveu até mesmo a isso.
"Por que você está aqui? Por que saiu da água?"
Porque vocês destruíram minha casa.
Por um momento o profissionalismo quase se manteve. Ele quase disse poderia elaborar sobre isso. O que saiu em vez disso foi um som, metade riso, metade algo sem nome.
A pressão mudou. Imagens chegaram sem convite. Estruturas sob o leito oceânico, não construções como ele entendia construções, mas vastas geometrias entrelaçadas mais antigas do que sua espécie andando ereta. Túneis e câmaras e algo que poderiam ser jardins, tudo escuro e pressurizado e vivo de maneiras que nada tinham a ver com luz solar ou oxigênio. E descendo através deles, vindas de cima, brocas de perfuração. Bombas sugando. A vibração de máquinas projetadas por criaturas que não sabiam o que estavam perfurando, porque nunca se deram ao trabalho de verificar, porque nunca lhes ocorreu que algo digno de verificação pudesse estar lá embaixo. Paredes cedendo. Câmaras se enchendo de petróleo bruto e água salgada. Corpos, se é que podiam ser chamados de corpos, esmagados sob escombros que se mantinham de pé desde antes do primeiro peixe desenvolver pernas.
Ele os viu morrer. Sentiu eles morrerem. O Sonhador o deixou sentir.
"Nós não sabíamos," disse Rafael. Sua voz saiu muito pequena. "Não sabíamos que vocês estavam lá embaixo."
Estou ciente.
"Então, então você entende. Não foi deliberado. Nós não."
Sua ignorância não é uma defesa. Quando uma pulga se alimenta de um cão, a pulga não sabe que é um parasita. A pulga não compreende o conceito de hospedeiro. Isso não impede o cão de se coçar.
"O que isso significa. O que você vai."
Significa que vou me coçar.
Não havia raiva nisso. Foi isso que derrubou os joelhos dele. Ele não caiu, mas cambaleou, e o microfone abaixou e ele se segurou e ficou parado balançando ali com o zumbido nos dentes e o cobre na língua e a certeza clínica, quase entediada, do que estava sendo dito a ele. Aquilo pretendia exterminar a humanidade da mesma forma que se agenda uma dedetização. Não com fúria. Com agenda.
"Você não pode," ele disse, e mesmo enquanto as palavras saíam dele ouviu como eram estúpidas, como a palavra não pode era inútil naquele contexto, mas as disse assim mesmo porque a boca ainda funcionava enquanto o resto dele se desmoronava. "São oito bilhões. Nós temos. Podemos fazer reparações. Podemos parar a perfuração. Eu, olha, sinto muito. Em nome de, de todos nós. Sinto muito pelo que fizemos com o seu."
Ele foi silenciando.
A pressão mudou de qualidade. Algo quase como calor se moveu através dela, e por um momento terrível ele pensou que o Sonhador fosse rir. Não riu. O que fez foi pior. Considerou o pedido de desculpas dele da forma como um cirurgião considera uma criança se oferecendo para consertar um fêmur estilhaçado com esparadrapo e um beijo.
Esse impulso. De negociar. De encontrar termos. É a coisa mais interessante que sua espécie produz.
Uma pausa. Um milhão de toneladas de água e pedra e algo mais antigo que a pedra, pousando sobre ele.
É irrelevante.
Rafael ficou ali parado. O microfone pendia ao lado do corpo. Nenhuma resposta veio. Pela primeira vez na carreira, ele não tinha nada.
"Tem que haver," ele começou.
Você presume ser o primeiro a falar conosco. Não é. Há aqueles entre os de sua espécie que já falaram, já ouviram, já escolheram. Seus governos. Suas instituições. Os lugares onde suas pequenas decisões são tomadas. Temos amigos lá. Eles vieram até nós de livre vontade. Escolheram a servidão porque a alternativa é o que estou descrevendo a você agora, e foram sábios o suficiente para preferir a coleira ao fogo.
Ele sentiu o sangue sumir do rosto, uma sensação real, o calor se retirando da pele. Pessoas. Pessoas de verdade. Autoridades, administradores, sejam lá quem tivesse assinado as licenças de perfuração, sejam lá quem tivesse enterrado as leituras de sonar que voltaram erradas, sejam lá quem tivesse olhado para os dados e dito que não havia nada ali embaixo e ido almoçar. Ou talvez nem fossem eles. Talvez seus vizinhos. Seus colegas na rede. A mulher que tinha lhe vendido o burrito. Qualquer um. Todo mundo. Como saber?
Não teria como saber.
Ele não tinha dito isso em voz alta. Mesmo assim, veio a resposta.
"Por favor", ele disse, sem saber o que estava pedindo. A palavra ficou apodrecida na boca dele.
O Sonhador se moveu. Nas águas rasas a forma se deslocou, um movimento que não deslocava água, que curvava a luz ao seu redor até seus olhos lacrimejarem. E de dentro daquela forma, dois pontos de luz se resolveram.
Vermelho. Vermelho profundo. Não o vermelho do fogo, nem do sangue, mas de algo que estava queimando desde antes de o conceito de vermelho existir, uma cor que era uma memória de calor da própria formação do planeta. Dois vastos abismos de luz rubi, e eles estavam olhando para ele.
Estavam olhando para ele.
O nome dele foi embora. Simplesmente foi, escorreu da cabeça dele como água pelo ralo, e por três segundos, ou quatro, ou mil anos, ele não era Rafael Ocasio, não era jornalista, não era humano, era um grão de atividade elétrica sobre uma rocha molhada girando por um vazio tão amplo que a luz de seu vizinho mais próximo levava anos para atravessá-lo, e ele foi visto, completa e totalmente visto, por algo que vinha observando rochas girarem desde antes de existirem rochas, e naquele olhar ele foi medido e considerado tão pequeno, tão breve, tão inteiramente sem peso que o conceito de importar desabou dentro dele como aquelas câmaras sob o fundo do oceano.
Ele estava correndo. Não se lembrava de ter se virado. Areia, depois capim rasteiro, depois asfalto, e Hollis gritava algo lá da van com a porta lateral já aberta, e Rafael se jogou para dentro e eles estavam em movimento, os pneus guinchando na estrada de acesso enquanto derrapavam em torno dos Humvees abandonados e entravam na rodovia.
Rafael estava rindo.
"Cala a boca", disse Hollis. "Cala a boca, cala a boca."
"Eles nadam", disse Rafael. Estava encolhido contra a porta, com os joelhos junto ao peito, o microfone ainda preso na mão, a espuma amassada e achatada. "Lá embaixo. Eles nadam no escuro e eles têm, eles têm demais. Os membros. Membros demais. E eles estão lá desde antes. Desde antes de tudo. Eles sonham e os sonhos sobem pela água e entram no."
A mão de Hollis atingiu o rosto dele com um estalo. Palma aberta, força total. A cabeça de Rafael virou de lado, os dentes bateram na bochecha ferida, um gosto de cobre desabrochou quente e fresco na boca, e por um segundo humano e brilhante o mundo era só dor e ele era só um homem que tinha levado um tapa.
Ele ficou quieto.
Hollis dirigia. A rodovia estava vazia. Sem trânsito, sem veículos militares, ninguém indo em direção ao litoral e ninguém voltando dele. Só estrada e céu cinza e as milhas entre eles e o oceano se alargando, devagar, misericordiosamente.
Rafael fitou o para-brisa e não disse nada.
Isso foi há três semanas. Acho. As datas ficaram pouco confiáveis, ou foi minha percepção delas que ficou. Estou gravando isto a pedido da rede, ou do que restou da rede. A maioria da equipe não voltou desde o segundo dia. Não os culpo.
Não me lembro do colapso na van. Hollis me contou depois, me disse o que eu falei, e acredito nele porque ele não inventa coisas, mas a lembrança em si é um vazio, alguns quadros cortados de uma fita. Lembro de sair na praia. Lembro de caminhar. Lembro do gosto de metal. E depois estou na van e minha bochecha dói e estamos a cento e trinta numa rodovia vazia e não há nada no meio, exceto.
Exceto os olhos.
Lembro dos olhos.
Eu os vejo quando fecho os meus. Isso não é uma metáfora. Fecho os olhos para dormir e eles estão lá, vermelhos e vastos e pacientes, observando por trás das minhas próprias pálpebras como se tivessem sido costurados no forro de cada pensamento que tenho. Não sonho mais. Só os vejo.
Hollis pediu demissão da rede. Deixou as gravações na minha mesa com um bilhete que dizia não me ligue, e eu não liguei. Assisti uma vez. A câmera treme tanto que mal dá para distinguir a forma na água. O áudio é vento e um som distante que talvez seja minha voz. Não parece muita coisa. Não parece nada que devesse ter partido um homem ao meio.
Fui instruído a compartilhar este relato. Estou compartilhando porque esse é o meu trabalho. Sou jornalista. Documento. Relato. Foi isso que aconteceu comigo e estou colocando no mundo porque as pessoas precisam saber o que está por vir.
É por isso que estou fazendo isso.
É por isso que estou fazendo isso.
Fico repetindo isso para mim mesmo, e fico não fazendo a pergunta que está por baixo, aquela que sinto sempre que o quarto fica quieto e a luz vermelha pulsa atrás dos meus olhos. Quem me disse para compartilhar isto. Quem plantou essa compulsão. Se o impulso de transmitir, de espalhar, de propagar pertence a mim, ou se foi plantado naquela praia da mesma forma que se empurra uma semente para dentro de um solo burro demais para recusar.
Não pergunto porque tenho medo de que a resposta sejam os olhos.
Posso vê-los agora mesmo. Eu estou

![/ [RH], Sarah, Reimaginada](https://cdn.setfri.com/covers/bc51d72e-311d-48b7-ae1c-05c4450d3a94.webp)
